Um Adeus Português

Alexandre O'Neill


Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada
Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor
Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver
Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual
Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser
Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

* * *

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Estatueta da Deusa Fortuna (Lameirancha)

Museu Nacional de Arqueologia



Estatueta de Fortuna
Proveniência: Lameirancha. Torres Novas
Cronologia: Época Romana. Séc. I d.C.
Tipologia: Estatueta de Fortuna em bronze
Dimensão: altura 16 cm largura 6,5 cm espessura 2,7 cm
Categoria: Bronzes figurativos
Nº de inventário: 17905

Fortuna representada por uma mulher jovem envergando uma longa túnica e coroada por um pequeno diadema. Como atributos segura, na mão esquerda, uma cornucópia dupla plena de elementos vegetalistas; a mão direita apresenta-se em posição de segurar o leme do Destino, que ora falta. Trata-se de uma peça de grande qualidade, por certo cópia de um protótipo clássico, executada muito provavelmente na época de Augusto e produto de importação. As suas características físicas apontam para um culto doméstico, de larário.

Fonte: Museu Nacional de Arqueologia

A Pianista

Elfriede Jelinek




Prémio Nobel da Literatura 2004

Ela não bebe, não fuma, dorme ainda, aos 36 anos, na cama da mãe e adora ficar em casa.
De cada vez que os seus horários de professora de piano no Conservatório de Viena lho permitem, entretém-se porém a frequentar os “peep-shows” e outros espectáculos pornográficos. Quando um dos seus alunos se apaixona por ela, Erika Kohut apenas tem para lhe oferecer uma relação sado-masoquista, onde se joga à luz dos dias de hoje a velha relação entre o escravo e o senhor.
Cruel, feroz e ao mesmo tempo de um cómico irrestível, A Pianista não poupa as veneráveis instituições da sociedade burguesa e põe a nu os labirintos do sexo e das suas nevroses.

Considerada na Áustria e na Alemanha como a mais importante autora da sua geração, Elfriede Jelinek tem já publicado em Portugal o seu romance Lust.

"Pela sua crueldade e crueza, o romance de Elfriede Jelinek evoca certos quadros expressionistas de Kokoschka. Decadente, fim de século, irónico e arrepiante, ele provoca a fascinação ou o repúdio, mas em caso algum nos deixa indiferentes." -
Claire Julliard, Lire

"Os seus livros valeram a Elfriede Jelinek ser tão contestada no seu país como Thomas Bernhard. O que é para nós uma referência." -
Dominique Autrand

Cry Me A River

Diana Krall