Possessão

«Um homem é a história dos seus alentos e pensamentos, actos, átomos e feridas,amor indiferença e aversão e também da sua raça e nação, da terra que o alimentou a ele e aos seus antepassados, das pedras e areias dos seus lugares familiares, das batalhas e lutas da consciência por longo tempo silenciadas, dos sorrisos das raparigas e das vagarosas sentenças das velhas, dos acidentes e da acção gradual da lei inexorável de tudo isto e de alguma coisa mais, uma única chama em que  tudo obedece às leis do próprio fogo, e contudo se acende e se apaga de um momento para o outro, e nunca pode ser reacendida em toda a extensão dos tempo.»

Randolph Henry Ash in Possession

Sometimes

Reamonn

Eterno abraço



Desenterrado casal abraçado há mais de 6000 anos
Lembra um poema: arqueólogos italianos desenterraram um casal abraçado na cidade de Mantova, a norte do país. A descoberta é considerada «um caso extraordinário».

«Porém mais tarde, quando foi volvido/ Das sepulturas o gelado pó, / Dois esqueletos, um ao outro unido, /Foram achados num sepulcro só» são os últimos versos de «Noivado do Sepulcro», elegia ultra-romântica do poeta português Soares dos Passos. 
Contudo, esta fantasia oitocentista tornou-se realidade: na cidade de Mantova, os arqueólogos desenterraram dois esqueletos neolíticos, à primeira vista jovens, ternamente abraçados.
Elena Menotti, líder das escavações, considerou que a descoberta é um «caso fantástico». A arqueóloga afirmou ainda que as duas ossadas pertencem quase certamente um homem e uma mulher jovens devido à arcada dentária bem conservada. 
«Devo dizer que quando nós os descobrimos ficamos muito entusiasmados. Tenho este emprego há 25 anos. Fiz escavações em Pompeia, todos os sítios famosos», declarou Menotti à Reuters. «Mas eu nunca fiquei tão comovida assim, porque esta é a descoberta de algo especial».
Um laboratório tentará determinar a idade do casal à época da morte e há quanto tempo estão enterrados.
Fonte: dora.guennes@sol.pt e Reuters.

Rebecca

Daphne Du Maurier




Escrito em 1938, Rebecca é uma obra de fôlego, diversas vezes adaptada ao cinema. Porém, só em 1941, numa versão de Alfred Hitchcock, o filme ganharia protagonismo, chegando mesmo a vencer dois Óscares estando nomeado para nove categorias.
Rebecca é um clássico onde os sentimentos adquirem um lugar de destaque. Sentimentos no feminino, já que se trata da história de duas mulheres que se envolvem com o mesmo homem, apenas com uma particularidade: Rebecca está morta. E é o fantasma, embora nunca visível, do seu passado que assombra a nova mulher, agora casada com o nobre britânico e apaixonado de Rebecca. A intriga é assombrosa e ao mesmo tempo envolvente deixando sempre a sensação de que Rebecca é omnipresente. E é com esta imagem antiga que a nova mulher do viúvo Maxim de Winter terá de enfrentar todos os que amavam Rebecca e que a encaram como alguém que veio para lhe roubar o lugar.
Rebecca é o romance que celebrizou Daphne du Maurier e que conheceu 28 reedições em quatro anos só na Grã-Bretanha.

«Esta narrativa arrepiante e plena de suspense continua tão apelativa e cativante como na altura da sua primeira publicação».
Daily Express

Vaza-me os olhos...

Rainer Maria Rilke

Vaza-me os olhos: continuarei a ver-te,
Tapa-me os ouvidos: continuarei a ouvir-te,
Mesmo sem pés chegarei a ti,
Mesmo sem boca poderei invocar-te.
Decepa-me os braços: poderei abraçar-te
Com o coração como se fosse a mão.
Arranca-me o coração: palpitarás no meu cérebro.
E se me incendiares o cérebro,
levar-te-ei ainda no meu sangue


Rainer Maria Rilke (1875-1926)
In Qual É a Minha ou a Tua Língua? – Cem poemas de amor de Outras Línguas(Tradução de Jorge Sousa Braga)

O Ano Da Morte De Ricardo Reis

José Saramago



Foi na biblioteca da escola industrial que O Ano da Morte de Ricardo Reis começou a ser escrito... Ali encontrou um dia o jovem aprendiz de serralheiro (teria então 17 anos) uma revista - Atena era o título - em que havia poemas assinados com aquele nome e, naturalmente, sendo tão mau conhecedor da cartografia literária do seu país, pensou que existia em Portugal um poeta que se chamava assim: Ricardo Reis.
Não tardou muito tempo, porém, a saber que o poeta propriamente dito tinha sido um tal Fernando Nogueira Pessoa que assinava poemas com nomes de poetas inexistentes nascidos na sua cabeça e a que chamava heterónimos, palavra que não constava dos dicionários da época, por isso custou tanto trabalho ao aprendiz saber o que ela significava. Aprendeu de cor muitos poemas de Ricardo Reis («Para ser grande sê inteiro/Põe quanto és no mínimo que fazes»), mas não podia resignar-se, apesar de tão novo e ignorante, a que um espírito superior tivesse podido conceber, sem remorso, este verso cruel: «Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo.»
Muito, muito tempo depois, o aprendiz, já de cabelos brancos e um pouco mais sábio das suas próprias sabedorias, atreveu-se a escrever um romance para mostrar ao poeta das Odes alguma coisa do que era o espetáculo do mundo nesse anos de 1936 em que o tinha posto a viver nos seus últimos dias: a ocupação da Renânia pelo exército nazista, a guerra de Franco contra a República espanhola, a criação por Salazar das milícias fascistas portuguesas. Foi como se estivesse a dizer-lhe: «Eis o espetáculo do mundo, meu poeta das amarguras serenas e do cepticismo elegante. Desfruta, goza, contempla, já que estar sentado é a tua sabedoria...»
José Saramago

Ricardo Reis nasceu em 1887
(Não me lembro do dia e do mês,
mas tenho-os algures),
no Porto, é médico
e está presentemente no Brasil
Fernando Pessoa
(carta de 13 de Janeiro de 1935)


Ricardo Reis regressou
a Portugal depois da morte
de Fernando Pessoa.
José Saramago