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Na Leitura e na Escrita Encontramo-nos Todos naquilo que Temos de Mais Humano

«A escrita, ou a arte, para ser mais abrangente, cumpre funções que mais nenhuma área consegue cumprir. (...) Sinto que há poucas experiências tão interessantes como quando se lê um livro e se percebe "já senti isto, mas nunca o tinha visto escrito", procurar isso, ou procurar escrever textos que façam sentir isso, é uma das minhas buscas permanentes. Trata-se de ordenar, de esquematizar, não só sentimentos como ideias que temos de uma forma vaga mas que entendemos melhor quando os vemos em palavras. Trata-se também de construir empatia: através da leitura temos oportunidade de estar na pele de outras pessoas e de sentir coisas que não fazem parte da nossa vida, mas que no momento em que lemos conseguimos perceber como é. E isso faz-nos ser mais humanos. Na leitura e na escrita encontramo-nos todos naquilo que temos de mais humano. »

José Luís Peixoto, in 'Diário de Notícias (2003)'
"Já naqueles tempos, meus únicos amigos eram feitos de papel e tinta. Na escola, tinha aprendido a ler e escrever muito antes das outras crianças do bairro. Onde meus colegas viam manchas de tinta em páginas incompreensíveis, eu via luz, ruas, gente. As palavras e o mistério de sua ciência oculta me fascinavam e, para mim, eram a chave que abria um mundo sem fim". 
Carlos Ruiz Zafón
 
 

Namora um rapaz que lê...



"Namora um rapaz que se orgulha da biblioteca que tem, ao invés do carro, das roupas ou do penteado. Ele também tem essas coisas, mas sabe que não é isso que vai torná-lo interessante aos seus olhos. Namora um rapaz que tenha uma pilha de três ou quatro livros na cabeceira e que lembre do nome da professora que o ensinou as primeiras letras. Encontre um rapaz que lê. Não é difícil descobrir: ele é aquele que tem a fala mansa e os olhos inquietos. Ele é aquele que pede, toda vez que vocês saem para passear, para entrar rapidinho na livraria, só para olhar um pouco. Sabe aquele que às vezes fica calado porque sabe que as palavras são importantes demais para serem desperdiçadas? Esse é o que lê.
Ele é o rapaz que não tem medo de se sentar sozinho num café, num bar, num restaurante. Mas, se você olhar bem, ele não está sozinho: tem sempre um livro por perto, nem que seja só no pensamento. O rosto pode ser sério, mas ele não morde, não. Sente-se na mesa ao lado, estique o olho para enxergar a capa, sorria de leve. É bem fácil saber sobre o quê conversar.Diga algo sobre o Nobel do Vargas Llosa. Fale sobre sobre as novas traduções que andam saindo por aí. Cuidado: certos best-sellers são assunto proibido. Peça uma dica. Pergunte o que ele está lendo –e tenha paciência para escutar, a resposta nunca é assim tão fácil.
Namora um rapaz que lê, ele vai entender um pouco melhor seu universo, porque já leu Simone, Clarice e –talvez não admita– sabe de memória uns trechos de Jane Austen. Seja você mesma, você mesmíssima, porque ele sabe que são as complicações, os poréns que fazem uma grande heroína. Um rapaz que lê enxerga em você todas as personagens de todos os romances. 
Um rapaz que lê não tem pressa, sabe que as pessoas aprendem com os anos, que qualquer um dos grandes tem parágrafos ruins, que o Saramago começou já velho, que o Calvino melhorou a cada romance, que o Borges pode soar sem sentido e que os russos precisam de paciência. 
Um namorado que lê gosta de muita coisa, mas, na dúvida, é fácil presenteá-lo: livro no aniversário, livro no Natal, livro na Páscoa. E livro no Dia das Crianças, por que não? Um rapaz que lê nunca abandonará uma pontinha de vontade de ser Mogli, o menino lobo. 
E você também ganhará um ou outro livro de presente. No seu aniversário ou no Dia dos Namorados ou numa terça-feira qualquer. E já fique sabendo que o mais importante não é bem o livro, mas o que ele quis dizer quando escolheu justo esse. Um rapaz que lê não dá um livro por acaso. E escreve dedicatórias, sempre.  
Entenda que ele precisa de um tempo sozinho, mas não é porque quer fugir de você.
Invariavelmente, ele vai voltar –com o coração aquecido– para o seu lado.  
Demonstre seu amor em palavras, palavras escritas, falas pausadas, discursos inflamados. Ou em silêncios cheios de significados; nem todo silêncio é vazio.  
Ele vai se dedicar a transformar sua vida numa história. Deixará post-its com trechos de Tagore no espelho, mandará parágrafos de Saint-Exupéry por SMS. Você poderá, se chegar de mansinho, ouvi-lo lendo Neruda baixinho no quarto ao lado.  
Quem sabe ele recite alguma coisa, meio envergonhado, nos dias especiais. Um rapaz que lê vai contar aos seus filhos a História Sem Fim e esconder a mão na manga do pijama para imitar o Capitão Gancho. 
Namora um rapaz que lê porque você merece. Merece um rapaz que coloque na sua vida aquela beleza singela dos grandes poemas. Se quiser uma companhia superficial, uma coisinha só para quebrar o galho por enquanto, então talvez ele não seja o melhor. Mas se quiser aquela parte do “e eles viveram felizes para sempre”, namora um rapaz que lê.  
Ou, melhor ainda, namora um rapaz que escreve."


  
(Baseado no "Namora uma rapariga que lê", by Gabriela Ventura)

Citações e Pensamentos de Sigmund Freud

Paulo Neves da Silva
(Organização)







«Toda a felicidade está cercada por uma série de limitações e basta começar a pensar nelas para nos sentirmos infelizes.»








Uma compilação de citações e textos, muitos deles inesperados, do pai da psicanálise. Sigmund Freud (1856-1939) abriu a porta de acesso aos segredos mais profundos que a mente humana encerra. Imortalizou-se e permanece vivo entre nós pela denúncia de todos os delírios individuais e colectivos que caracterizam a nossa sociedade e que nos mantêm reféns de um conjunto de instintos básicos e pré-históricos dos quais as civilizações não se conseguem livrar. Esta compilação de citações e textos do pai da psicanálise incide menos na psicologia como ciência e mais nas suas opiniões pessoais sobre o ser humano. Podemos conhecer Freud na sua intimidade, nomeadamente através dos excertos retirados das cartas de amor dirigidas a Martha. 


«Durante muito, muito tempo, critiquei-te e desfiz-te em bocadinhos, e o resultado de tudo isso é que não há nada que eu queira mais que a ti, e exatamente como tu és.»
 in Citações e Pensamentos de Sigmund Freud (Cartas a Martha)

«Eu sabia que seria apenas depois de te teres ido embora que iria perceber a completa extensão da minha felicidade e, alas! o grau da minha perda também. Ainda não a consegui ultrapassar, e se não tivesse à minha frente aquela caixinha pequena com a tua doce fotografia, pensaria que tudo não teria passado de um sonho do qual não quereria acordar.»
in Citações e Pensamentos de Sigmund Freud (Cartas a Martha), organizado por Paulo Neves da Silva

Citações e Pensamentos de Fernando Pessoa

Paulo Neves da Silva
(Organização)





100 Excertos, 350 citações, 65 poemas, distribuídos por mais de 200 temas.
Uma compilação única dos melhores textos de Fernando Pessoa.










Fernando Pessoa é popularmente conhecido como um dos maiores poetas portugueses, mas a sua obra como pensador é fracamente conhecida. Este livro é o produto da selecção e recolha de textos do autor por toda a sua obra, dispersa pelos mais variados livros editados após a sua morte como compilações dos seus manuscritos. Portador de uma sabedoria lúcida que poderia rivalizar com os maiores filósofos, a par de uma capacidade de expressão prática em pequenos textos, Pessoa oferece momentos de reflexão sobre temáticas intemporais, escritas de uma forma única, numa filosofia que não descura a prática, envolta sempre de algum sentido poético. 


«Viver não é necessário; o que é necessário é criar.» 


«Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples. Tem só duas datas -
a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus.»


«Escrever é traduzir.
Mesmo quando estivermos a utilizar a nossa própria língua. Transportamos o que vemos e o que sentimos para um código convencional de signos, a escrita e deixamos às circunstâncias e aos acasos da comunicação a responsabilidade de fazer chegar à inteligência do leitor, não tanto a integridade da experiência que nos propusemos transmitir, mas uma sombra, ao menos, do que no fundo do nosso espírito sabemos ser intraduzível,por exemplo a emoção pura de um encontro, o deslumbramento de uma descoberta esse instante fugaz de silêncio anterior à palavra que vai ficar na memória como o rastro de um sonho que o tempo não apagará por completo.»
José Saramago

The Song of Amergin

I am the wind on the sea,
I am the wave of the sea,
I am the sound of the sea,
I am a stag of seven tines,
I am the hawk on the cliff,
I am a tear of the sun,
I am fair among flowers,
I am a boar,
I am a salmon in a pool,
I am a lake on a plain,
I am a hill of poetry,
I am a battle wagging spear,
I am a god who forms fire for a head.


Who makes clear the ruggedness of the mountains?
Who but myself knows where the sun shall set?
Who foretells the ages of the moon?
Who brings the cattle from the House of Thedra and segregates them?
On whom do the cattle of Thedra smile?
Who shapes weapons from hill to hill?


Invoke, People of the Sea, invoke the poet, that he may compose a spell for you.
For I, the Druid, who set out letters in Ogham, 
I, who part combatants,
I will aproach the rath of the Sídhe to seek a cunning poet that together we may concoct incantations.
I am a wind of the sea.

Fonte: VARANDAS, Angélica, Mitos e Lendas - Celtas Irlanda, Livros e Livros (2006)


“I'm selfish, impatient and a little insecure. I make mistakes, I am out of control and at times hard to handle. But if you can't handle me at my worst, then you sure as hell don't deserve me at my best.”
Marilyn Monroe

Namora uma rapariga que lê...



“Namora uma rapariga que lê. Namora uma rapariga que gaste o dinheiro dela em livros, em vez de roupas. Ela tem problemas de arrumação porque tem demasiados livros. Namora uma rapariga que tenha uma lista de livros que quer ler, que tenha um cartão da biblioteca desde os doze anos.
Encontra uma rapariga que lê. Vais saber que é ela, porque anda sempre com um livro por ler dentro da mala. É aquela que percorre amorosamente as estantes da livraria, aquela que dá um grito imperceptível ao encontrar o livro que queria. Vês aquela miúda com ar estranho, cheirando as páginas de um livro velho, numa loja de livros em segunda mão? É a leitora. Nunca resistem a cheirar as páginas, especialmente quando ficam amarelas.
Ela é a rapariga que lê enquanto espera no café ao fundo da rua. Se espreitares a chávena, vês que a espuma do leite ainda paira por cima, porque ela já está absorta. Perdida num mundo feito pelo autor. Senta-te. Ela pode ver-te de relance, porque a maior parte das raparigas que lêem não gostam de ser interrompidas. Pergunta-lhe se está a gostar do livro.
Oferece-lhe outra chávena de café com leite.
Diz-lhe o que realmente pensas do Murakami. Descobre se ela foi além do primeiro capítulo da Irmandade. Entende que, se ela disser ter percebido oUlisses de James Joyce, é só para soar inteligente. Pergunta-lhe se gosta da Alice ou se gostaria de ser a Alice.
É fácil namorar com uma rapariga que lê. Oferece-lhe livros no dia de anos, no Natal e em datas de aniversários. Oferece-lhe palavras como presente, em poemas, em canções. Oferece-lhe Neruda, Pound, Sexton, cummings. Deixa-a saber que tu percebes que as palavras são amor. Percebe que ela sabe a diferença entre os livros e a realidade – mas, caramba, ela vai tentar fazer com que a vida se pareça um pouco com o seu livro favorito. Se ela conseguir, a culpa não será tua.
Ela tem de arriscar, de alguma maneira.
Mente-lhe. Se ela compreender a sintaxe, vai perceber a tua necessidade de mentir. Atrás das palavras existem outras coisas: motivação, valor, nuance, diálogo. Nunca será o fim do mundo.
Desilude-a. Porque uma rapariga que lê compreende que falhar conduz sempre ao clímax. Porque essas raparigas sabem que todas as coisas chegam ao fim. Que podes sempre escrever uma sequela. Que podes começar outra vez e outra vez e continuar a ser o herói. Que na vida é suposto existir um vilão ou dois.
Porquê assustares-te com tudo o que não és? As raparigas que lêem sabem que as pessoas, tal como as personagens, evoluem. Excepto na saga Crepúsculo.
Se encontrares uma rapariga que leia, mantém-na perto de ti. Quando a vires acordada às duas da manhã, a chorar e a apertar um livro contra o peito, faz-lhe uma chávena de chá e abraça-a. Podes perdê-la por um par de horas, mas ela volta para ti. Falará como se as personagens do livro fossem reais, porque são mesmo, durante algum tempo.
Vais declarar-te num balão de ar quente. Ou durante um concerto de rock. Ou, casualmente, na próxima vez que ela estiver doente. Pelo Skype.
Vais sorrir tanto que te perguntarás por que é que o teu coração ainda não explodiu e espalhou sangue por todo o peito. Juntos, vão escrever a história das vossas vidas, terão crianças com nomes estranhos e gostos ainda mais estranhos. Ela vai apresentar os vossos filhos ao Gato do Chapéu e a Aslam, talvez no mesmo dia. Vão atravessar juntos os invernos da vossa velhice e ela recitará Keats, num sussurro, enquanto tu sacodes a neve das tuas botas.
Namora uma rapariga que lê, porque tu mereces. Mereces uma rapariga que te pode dar a vida mais colorida que consegues imaginar. Se só lhe podes oferecer monotonia, horas requentadas e propostas mal cozinhadas, estás melhor sozinho. Mas se queres o mundo e os mundos que estão para além do mundo, então, namora uma rapariga que lê.
Ou, melhor ainda, namora uma rapariga que escreve.”

(Texto de Rosemary Urquico, encontrado no blogue de Cynthia Grow. Tradução “informal” de Carla Maia de Almeida para celebrar o Dia Mundial do Livro, 23 de Abril.)
«Sempre imaginei que o paraíso devia ser algum tipo de biblioteca.»
Jorge Luís Borges
"Uma palavra encerrava tudo o que ele sentia e explicava por que recordaria com insistência aquele momento depois. Liberdade. Na vida e nos braços e nas pernas. (...) Agora, finalmente, com o exercício de sua vontade, sua vida adulta tivera início. Estava tecendo uma história em que ele próprio era o protagonista, e a cena inicial já causara um certo espanto em seus amigos. (...) Nunca antes tivera tanta consciência de sua juventude, nem experimentara tamanho apetite, tamanha impaciência, para que a história começasse logo."

Atonement by Ian McEwan

A Sombra do Vento

"Bea diz que a arte de ler está a morrer muito lentamente, que é um ritual íntimo, que um livro é um espelho e que só podemos encontrar nele o que já temos dentro, que ao ler aplicamos a mente e a alma, e que estes são bens cada dia mais escassos."
Daniel Sempere in A Sombra do Vento



Retrato a Sépia

«Se não fosse pela minha avó Eliza, que veio de longe iluminar os recantos sombrios do meu passado, e por estes milhares de fotografias que se acumulam na minha casa, como poderia contar esta história? Teria de a forjar com a imaginação sem outro material além dos fios evasivos de muitas vidas alheias e de algumas lembranças ilusórias. A memória é ficção. Seleccionamos o mais brilhante e o mais escuro, ignorando o que nos envergonha, e assim bordamos a larga tapeçaria da nossa vida.»
Aurora in Retrato a Sépia

Possessão

«Um homem é a história dos seus alentos e pensamentos, actos, átomos e feridas,amor indiferença e aversão e também da sua raça e nação, da terra que o alimentou a ele e aos seus antepassados, das pedras e areias dos seus lugares familiares, das batalhas e lutas da consciência por longo tempo silenciadas, dos sorrisos das raparigas e das vagarosas sentenças das velhas, dos acidentes e da acção gradual da lei inexorável de tudo isto e de alguma coisa mais, uma única chama em que  tudo obedece às leis do próprio fogo, e contudo se acende e se apaga de um momento para o outro, e nunca pode ser reacendida em toda a extensão dos tempo.»

Randolph Henry Ash in Possession
«Quais são as tuas palavras essenciais? As que restam depois de toda a tua agitação e projectos e realizações. As que esperam que tudo em si se cale para se ouvirem. As que talvez ignores por nunca as teres pensado. As que podem sobreviver quando o grande silêncio se avizinha.»

Vergílio Ferreira